Tarrafal de São Nicolau, Cabo Verde

Tarrafal de São Nicolau, Cabo Verde

Tarrafal está virada para o mar e é na sua baía, junto ao seu porto e às suas praias onde o pouco movimento acontece.

Na memória coletiva portuguesa, o nome Tarrafal é maldito.

No entanto o Tarrafal deste artigo não é o maldito Tarrafal de Santiago. Esta é outra localidade que tem o mesmo nome e é uma vila doce, pacata, na ilha de São Nicolau.

Se procurarmos na História também encontramos deportações para este Tarrafal, essas anteriores às que vieram acontecer para Tarrafal de Santiago mas nunca com essa dimensão nem severidade.

Tarrafal de São Nicolau é a segunda zona mais populosa da ilha a seguir a Ribeira Brava que é a capital. Calculo que tenha entre 5000 a 6000 habitantes e localiza-se no extremo oposto da ilha face ao Aeroporto da Preguiça que, por sua vez, se localiza perto da capital.

A primeira sensação que tive ao chegar a São Nicolau e ao me dirigir para o Tarrafal, foi de alguma desorientação porque o trajeto faz-nos andar às voltas. Rapidamente entendemos que isso deve-se à orografia da ilha, o caminho é sinuoso.

Os dias no Tarrafal acontecem ao verdadeiro ritmo da vida saudável, não corremos à procura do amanhã mas antes vivemos cada momento, o que faz com que cada hora tenha verdadeiramente sessenta minutos e dá-nos tempo de viver.

A vila está virada para o mar. Tenho a mesma sensação no Mindelo, São Vicente, mas isso não se sente na Praia, em Santiago, não obstante todas estas localidades usufruírem de baías.

As ruas da vila dirigem-se para o mar e no porto, nas praias e no centro da vila que também não fica longe, é onde a pouca agitação acontece.

A vila está rodeada por montanhas com brechas onde passam as viaturas em estradas recentemente reabilitadas. Ao me aproximar do Tarrafal pela primeira vez, vindo destas montanhas, lá do alto percebi automaticamente que teria que voltar a estas estradas para fotografar a vila num pôr-do-sol, era inevitável.

A elevada temperatura da vila dá finais de dias com cores fortes que variam entre o azul avermelhado e o laranja arroxeado.

O calor da areia negra nestes finais de dia atrai pouca gente porque não há quem atrair, a praia fica simplesmente vazia à espera da inevitável enchente de turistas que um dia virão passar uns dias quando descobrirem este pequeno paraíso.

Durante o dia passeio na vila, vou à mercearia onde julguei que poderia comprar carne para cozinhar o meu jantar.

“Não há carne” dizem-me, “nem de porco e de vaca …” riem-se. “Só frango”.

Efetivamente, se quisermos carne de porco ou de vaca, teremos que ir a Ribeira Brava ou então encomendar com alguma antecedência.

O atum fresco, a garoupa e o esmoregal imperam nestas zonas e foram a minha escolha natural em dias diferentes.

O final do dia é pacífico e a única sensação que me atormenta é saber que o meu tempo aqui será curto.

Tento-me encher deste sítio o mais que puder e regressar de papo cheio.

Mas foi um esforço inglório, não me consegui fartar mas abriu-me o apetite para muito mais.

David Monteiro

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