Caminhada ao Pico Pequeno, Ilha do Fogo, Cabo Verde

Caminhada ao Pico Pequeno, Ilha do Fogo, Cabo Verde

O trilho de caminhada até Chã das Caldeiras passando pelo Pico Pequeno, na ilha do Fogo, em Cabo Verde, foi uma surpresa que tornou especial um momento que pensei que seria só de ir do ponto A para o ponto B.

Durante a viagem à Ilha do Fogo, a subida ao Pico do Fogo, o ponto mais alto da ilha com 2829m era uma caminhada obrigatória.

Com esse objetivo em vista preparei tudo para passar duas noites em Chã das Caldeiras, a povoação que fica no sopé da montanha e onde há maior concentração de alojamentos.

Esta ascensão polarizou a minha atenção para os dias a passar aqui até porque pouco li sobre o mais que se podia fazer à volta.

A experiência de vida e a experiência destes contextos vai-se acumulando e sei que quase sempre há mais para ver e fazer nestes locais do que aquilo que é contado, só não sei o que é e por isso não sei como me preparar.

Normalmente é contado o que é mais mediático, pretende-se que as fotografias nas redes sociais sejam rapidamente reconhecidas para que todos identifiquem onde estivemos sem terem que ler e nessa velocidade e frenesi social não cabem os tesouros escondidos.

Não vejo mal nenhum em nada disto, depende sempre do objetivo de cada pessoa e o que verdadeiramente interessa é que o resultado seja o aumento de felicidade de quem viaja, de quem vê as fotografias e de quem tem a coragem de ler, sejam estes artigos ou outros textos.

Porém, no meu caso, o que gosto mesmo é de tesouros escondidos, não obstante também gostar de ir a alguns locais mais mediáticos como foi a ascensão do Pico do Fogo.

Percebi então que a certa altura o trajeto de carro até Chã das Caldeiras bordeava uma boa área que em 2014 ficou inundada de lava que foi expelida do Pico Pequeno.

Vendo no mapa, o Pico Pequeno, com sensivelmente 1800m de altitude, fica mais ou menos a meio caminho entre a zona onde a estrada ficou cortada pela lava e Chã das Caldeiras o meu destino de pernoita.

Então programei a viagem de modo a ser deixado nesse ponto da estrada que ficou cortada e caminhar o resto do caminho. Para ver melhor a zona afetada pela lava teria que ganhar alguma altitude e então fazia sentido subir até ao Pico Pequeno.

Como é normal, procurei trilhos que por ali passassem e qual o meu espanto quando vi que esse é um trilho conhecido e sem qualquer dificuldade de maior.

Se assim pensei, assim fiz.

Ao chegar ao ponto da estrada cortada tivemos contacto com a lava de 2014.

É imenso, é avassalador, é um gigantesco manto de lava com uns 2,5m de altura e uma área brutal … fui à procura na Wikipédia e o que aí está escrito é “Entre a 23 de Novembro de 2014 e 8 de Fevereiro de 2015 o vulcão da ilha do Fogo expeliu lava durante 77 dias na última erupção [3]. Os derrames atingiram entre 100 e 125 milhões de toneladas de lava.

O trilho que nos leva até ao Pico Pequeno ascende cerca de 300m, o que já dá para ter uma ideia muito interessante da área afetada dentro da cratera.

Além do mais, vamos subindo com a paisagem inevitável do Pico do Fogo que parece seguir-nos com o seu olhar austero.

No topo do Pico Pequeno encontramos rochas de matéria sulfurosa com interiores alaranjados, amarelos esverdeados e com cristais estrelados visíveis a olho nu.

É hora de comer a bucha.

O ar é frio. Apesar de estarmos em Cabo Verde onde há muito calor, estamos a 1800m de altitude e por isso a temperatura é mais baixa e há muito vento, o que ajuda a ter uma sensação de mais frio.

Sai calor do chão. O suficiente para me queimar o rabo quando me sento de forma confiante junto a umas pedras para as fotografar melhor.

De um lado olho o trajeto que fizemos e são linhas de cinzentos mais claros sobre o cinzentão da escória de lava do vulcão grande. Parecem as linhas na areia da praia que fazemos com os dedos.

Para o outro lado olho o caminho que ainda iremos fazer e que nos levará a Chã das Caldeiras.

Deste ponto de observação tudo em Chã das Caldeiras parece estranho. As casas parecem ser rente ao chão e não há nada à sua volta, só negro.

Vim a resolver este mistério mais tarde e descreverei isso quando escrever sobre esta povoação.

Não consigo evitar pensar no desespero que estas gentes devem ter sentido durante a erupção. O desespero que qualquer pessoa sente ao perceber que tudo o que tem está em perigo causado por um elemento imparável.

Ao mesmo tempo é de uma intensa beleza que se impõe, baralha-nos as ideias sem nos deixar pensar muito sobre seja o que for.

Os tradicionais motivos de fotografias não me inspiram. Formas, padrões, repetições … nada disso … também a fotografia a preto e branco não me cativa mas aqui é inevitável, é uma obrigação que irei cumprir mais tarde.

Foi uma caminhada muito agradável, nada cansativa e que nos permite uma grande preparação para o que iremos ver a seguir.

O trajeto total tem cerca de 6,5Km, com 300m de desnível positivo.

Considero que esta caminhada é algo obrigatório ao visitar Chã das Caldeiras, ajuda a compreender o passado recente.

David Monteiro

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